Sexo, Prazer e outras coisas
A tsetse escreveu hoje um post intitulado Ter ou não ter prazer?, e este post é como que uma resposta para ela, e ao mesmo tempo uma pequena divagação da minha parte acerca do tema, e de outros temas que eu acho que lhe estão intimamente relacionados.O post da Teresa (é esse no nome por detrás do nick, mas tenho a certeza que quem a lê já sabe isso) fala de um dos principais problemas da nossa sociedade, da sociedade ocidental de uma forma geral, e arriscaria mesmo dizer, da grande maioria das sociedades humanas neste planeta. É um problema complexo, e de solução díficil de encontrar. O ponto especifico da Teresa é o do prazer sexual das mulheres, se o devem buscar, se o devem demonstrar, se o devem pedir. Mas essa é na realidade apenas uma insignificante parte de um problema bem mais complexo, do qual a emanicipação das mulheres foi um passo pequeno, mas ainda assim imprescindível.
Vivemos durante demasiado tempo numa sociedade patriarcal, provavelmente - os meus conhecimentos de antropologia não são os suficientes para avaliar esta questão com a profundidade necessária, não sei se os de alguém são - porque ao longo dos milénios que aqui nos trouxeram a força foi sempre um elemento importante para a sobrevivência do grupo. Mas com a revolução industrial isso deixou de ser verdade para a grande maioria da nossa espécie, e estamos ainda a tentar ultrapassar as consequências desse desiquilibrio de poder que se criou. Hoje quase qualquer ser humano tem a força e a inteligência necessárias para sobreviver por si só, não fosse o caso dos desiquilibrios económicos que somos levados a criar na nossa vida.
Durante muito tempo, as melhores fêmeas eram escolhidas por quem escolhia primeiro, os machos mais fortes, os macho dominantes, aqueles que lideravam os grupos de caça, aqueles que conseguiam os melhores territórios agricolas, aqueles que conseguiam desempenhar a tarefa mais díficil. E cabia-lhes manter esse macho satisfeito para serem devidamente alimentadas. Eu certamente não consigo explicar porque motivo os pais se tornam orgulhosos das suas crias, mas a verdade é que isso acontece, e isso fez com que as mulheres percebessem que dar descendentes a um homem era normalmente uma forma de garantir a sua posição na casa de um homem.
Mas isso era no tempo em que a grande maioria das tarefas eram pesadas, árduas o suficiente para que a maioria das mulheres não as conseguissem executar com a mesma facilidade que os homens. Hoje, especialmente na sociedade ocidental, a grande maioria das tarefas podem perfeitamente ser executadas por homens e mulheres de igual forma. E hoje muitas mulheres, como a minha amiga Teresa, são perfeitamente independentes, capaz de sobreviver (ou mesmo viver bem) pelos seus próprios meios. E cada vez mais isso será uma realidade.
E, por isso, os velhos padrões sociais, em que a mulher se deve submeter ao marido fazem menos sentido. A nossa sociedade mostra cada vez mais sinais de mudanças, ainda que nem sempre positivos, e sempre menos do que aqueles de nós que gostariam de viver numa sociedade justa e equilibrada gostariam, mas ainda assim estamos a mudar.
Esta será talvez uma sociedade mais justa para as nossas filhas, as filha da minha geração e da da Teresa, que já não estarão dispostas a permitir muitas das coisas que as mulheres da nossa geração permitem, como dizerem-lhes que se devem guardar para o casamento - a resposta mais provável será "casaquê?". E elas têm razão.
O casamento como o conhecemos hoje é uma instituição de um tempo que não chegou a existir, imposto por pessoas que nunca casaram e que se anuncia como o culminar de relacionamento que não são de pessoas, mas para pessoas - e raramente para as pessoas que dizem assumí-lo de livre e expontânea vontade. Mas, independentemente disso, é este mesmo casamento, monogamico e heterossexual, a imagem com que a nossa sociedade nos acena e nos diz que é assim que todas as relações devem ser. Com um estéreotipo, incapaz de apresentar exemplo reais com uma frequência que seja sequer estatisticamente relevante.
E, como se isto não fosse suficiente, os mesmos senhores que inventaram esta imagem deturpada dos relacionamentos humanos continuam até hoje a anúnciar essa como a única forma de chegar ao céu, como a única forma viável de viver mas, não contentes apenas com isso, vêm rapidamente acrescentar que o sexo é impuro a menos que seja praticado dentro do casamento e para fins reprodutivos. E repetem esta sua lição durante tantas gerações que acabam por por conseguir convencer muitos. E, claro, astutamente ou por consequência da macabra psicologia humana acabam por levar a sua luta apenas às portas femininas, e por conseguir aliados nos homens que querem manter sobre controlo as suas próprias fêmeas, talvez por medo que os profetas da desgraças estivessem correctos, talvez porque o próprio ego os tenha feito sentir bem no controlo das suas casas e das suas fêmeas.
Mas a verdade é que esses tempos estão a passar, esperamos nós. Mas ao contrário das nossas filhas, as mulheres da nossa geração, Teresa, ainda vão ter que se levantar e dizer, com grande força de vontade, e muita coragem o que querem, e porque o querem, mas também o que não querem, e vão ter que ter a coragem de fugir das relações que não querem ou educar os parceiros que as respectivas mães e a sociedade de uma forma geral não sobe educar. Sim, sei que é muito o peso que cai em cima das mulheres da nossa geração, mas enquanto não houver uma geração completa de mulheres a quem seja ensinado que são em tudo independentes e equiparadas aos seus semelhantes masculinos, vamos continuar a ter uma sociedade em que as mulheres não sabem qual o papel que a sociedade espera que desempenha, mas acima de tudo, mulheres com vontade de pedir, de gritar, por aquilo que realmente desejam para si, da sociedade e dos seus parceiros.
E, enquanto isso não acontecer, mesmo para aqueles de entre nós que gostariam de construir convosco uma sociedade mais justa, mais equilibrada e mais humana para todos nós, é dificil fazê-lo se não nos dizem o que querem, o que gostam e o que não gostam e não querem. Por isso, se por nenhuma outra razão, dizerem o que querem e o que gostam pode ser a única opção aceitável. E sim, por favor, tem prazer na vida, procura-o, demonstra-o quando o encontrares, e ajudas aqueles/as cuja ajuda estiveres disposta a aceitar como te ajudar a chegar lá.
Mas que sei eu, afinal?

Comentários
Cecilia2009-09-01 17:49:38
Tens sensibilidade e isso... muda tudo.
inclusive a tua visão do mundo e a sua actualidade. Concordo especialmente contigo na parte em que dizes ser necessário nós expressarmos o que queremos.
muda tudo
Este ano vim do Brasil, onde se vive mais o machismo incrustado na cultura do que aqui a meu ver, chateada com a submissão da namorada do meu primo. E claro, com o egoismo (pouco consciente parece-me) dele. E nem falo da questão sexual, que não faço a mais pequena ideia, falo de tudo o resto.
Quanto a ter prazer, todos, homens e mulheres, deviam tê-lo e procurá-lo, sem vergonhas, sem problemas. Se Eu fosse homem e não fosse capaz de dar prazer à minha mulher ia sentir-me frustrado! Como eu enquanto mulher tenho gosto em explorar e perceber o que dá mais prazer ao meu namorado e o que me dá mais prazer a mim.
Uma relação para funcionar procura o equilibrio a todos os niveis, se tal não acontecer, uma das partes vai andar insatisfeita... e isso é só o inicio de uma bola de neve.
:) Beijinhos Marco!