Pitux: Amar duas pessoas? Sim!
Este post é uma resposta ao post da Pitux Amar duas pessoas. Ia colocá-lo nos comentários no blog dela, mas achei que era demasiado extenso para isso. Aqui fica, portanto.Ao contrário de ti, eu não acredito que seja errado amar duas pessoas ao mesmo tempo. Acho, pelo contrário, que é errado forçar alguém a escolher entre dois amores. Não estou com isto a dizer que não compreendo a dificuldade que é para a maioria das pessoas aceitar que o seu amante (no sentido de aquele que ama, não necessáriamente no sexual e muito menos no sentido de relacionamento extra-conjugal) ama outra pessoa, mas que apesar disso nos continua a amar.
Quase todos nós (e eu estou aqui incluido) crescemos numa sociedade que nos ensinou (e continua hoje a (tentar) ensinar) que o amor é excluviso, que só se pode amar uma pessoa de cada vez. A muitos de nós ensinou mesmo que o amor é para toda a vida, mas essa é uma fantasia cada vez mais dificil de... (desculpa o verbo, mas não encontro melhor) impingir - e eu acho que isso é bom (o ser dificil de impingir).
Mas a verdade é que todos nós amamos muitas pessoas. Vais dizer-me, bem sei - ou tu ou alguém - que não amamos todas essas pessoas da mesma maneira. É verdade, e vou, claro, falar do amor de um pai ou uma mãe pelos seus filhos, do amor que sentimos pelos nossos irmãos (se tivermos sorte de ter uma familia em que esse tipo de sentimentos cresceu), do amor que sentimos pelos nossos pais e por outras figuras paternar (no meu caso tenho uma tia a quem amo como a uma mãe, como à minha mãe). Alguns de nós não terão problemas em afirmar que amam os seus animais, outros...
Mas quando falamos do tipo de amor que pode levar ao sexo, e eventualmente à paternidade/maternidade, aí temos que ser exclusivistas. Bem, ninguém se lembra já do porquê deste tipo de... fantasia, mas não passa mesmo de uma fantasia.
Não me intrepretem mal, mas não tenho nada contra a monogamia. Acho que esta é perfeitamente normal, mas desde que esta seja uma opção dos seus participantes, e não um principio, imposto pela sociedade, que o considera inviolável e que condena severamente a sua violação.
Mas, claro, não considero também que os compromissos são apenas um meio que podemos utilizar a nosso belo prazer, com total - ou mesmo parcial - desrespeito, ou pior, desprezo - por aqueles que estão nessas relações connosco.
Para mim a única coisa que não deve ser violada numa relação é a confiança e o respeito das pessoas envolvidas. E o não violar essa confiança passa antes de mais por todas as pessoas envolvidas saberem quais são as bases e os prossupostos desse relacionamento, por saber o que é permitido e o que é esperado dos envolvidos.
Mas, claro, isso é uma preocupação - neste caso pré-ocupação é mesmo a palavra adequada , uma vez que este é o tipo de informação que deve ser trocada antes de ser necessária - dos envolvidos, e sobre a qual quem está de fora não tem que meter o nariz - ainda que eu perceba que possa querer passar informação que tenha.
Para despachar de uma vez quem está de fora, uma opinião e uma anedota.
Primeiro a opinião: uma pessoa externa, uma pessoa externa, mais? amiga de um dos elementos de uma relação - que pensa ser monogâmica - vê o outro elemento com uma terceira pessoa, aos beijos - por exemplo. Deve a pessoa dizer ao amigo? Claro, se achar que tem uma relação suficientemente intima com a outra pessoa, se gostava que o amigo o informasse na situação oposta, e está preparado para receber as revelação que podem resultar dessa revelação - como descobrir, por exemplo, que os amigos têm uma relação aberta, e que cada um deles tem relacionamentos extra-conjugais.
A anedota, é já velhinha, pelo menos para os meus lados:
Um dia uma mulher chega a casa e diz ao marido:
- Querido, vou fazer a mala e sair de casa. Vou viver para casa de uma amiga minha.
- Mas... Porquê?
- Por uma das minhas amigas viu-te a sair de um motel com uma mulher no fim de semana passado.
- Mas, querida, essa mulher eras tu.
- Sim, mas a minha amiga não me reconheceu, só te reconheceu a ti. Não querias que lhe dissesse que era eu, pois não? Aii, o que ela iria pensar de mim.
O marido, chateado, sai de casa e volta passado meia hora. Vai ao armário, carrega a caçadeira, vai até ao quarto onde a mulher arruma a mala para se ir embora, e diz-lhe:
- Querida, desculpa, mas vou ter que te matar.
- Mas... porquê?
- Sabes o meu amigo Miguel? Bem, ele viu-te a sair de um motel no fim-de-semana.
- Mas foi contigo que eu fui ao motel.
- Sim, mas o Miguel não me viu a mim. Só te viu a ti a sair.
Onde quero chegar com esta pequena estória? Bem, o meu ponto é que não faz sentido acabar com uma relação - ou pior, matarem-se - apenas porque uma parte de um acordo vosso - ou algo que fizeram juntos - que consideram privado se tornou público.
Sim, mesmo que achem - com razão - que a vossa vida emocial/sexual apenas a vós diz respeito, se decidirem levá-la para fora de portas é boa ideia falarem antes sobre a vossa resposta para o caso de serem questionados sobre o tema - o que é mais provavel de acontecer à medida que se expôem mais.
Mas, voltemos ao tema inicial. A não-monogamia. Uma homem casado tem durante anos uma relação extra-conjugal, e um dia a noticia torna-se pública. Todos assumem que a mulher (com quem é casado, e com quem vive) não sabia. A mulher, se lhe perguntarem, confirma - obviamente - que não sabia de nada, que o marido é um malandro, expulsa o marido de casa. E a verdade podem ser mesmo essa. Mas também pode não ser.
Mas, a nossa sociedade não veria com bons olhos uma mulher que aceita que o seu marido tenha uma relação com outra mulher enquanto passa a noite na mesma cama que ela. E mesmo que isso seja cada vez menos uma realidade, principalmente devido à quantidade de vezes que sabemos deste tipo de situações, devido às estatisticas relativas a casamento e divórcio, ainda assim a pessoa pergunta-se o que dirão os amigos, o que dirá o seu circulo de amigos, o que pensará a sua familia...
Mas, e se um casal, com todas as razões para estarem juntos, incluindo gostarem da companhia mútua, depois de discutirem o tema, concordarem que o homem cortege a nova vizinha, solteira, perfeitamente conhecedora da situação familiar do seu intimo vizinho e interessada nesse relacionamento, não percebo o que é que o resto da humanidade tem a ver com o tema.
Sim, provavelmente a realidade por detrás de muitas das relações que se parecem com a que descreves é diferente. Razoavelmente diferente. O homem cruzou-se com a vizinha no elevador, não muito depois de ela se ter mudado, ela era simpática, e correspondeu, passaram-se meses, talvez anos, até que um dia, nem Deus percebeu bem como, ele acabaram por se envolver. A mulher descobriu algum tempo depois, talvez por acaso, talvez naquele dia em que o elevador estava avariado e ela ia a subir pelas escadas quando viu o marido a sair cuidadosamente do apartamento da vizinha. Na altura não disse nada. Talvez mais tarde tenha deixado perceber que descobrira, mas nunca falaram abertamente sobre o tema. Ou então ela nunca descobriu e foi completamente apanhada de surpresa quando a descoberta se tornou pública.
Mas isso, também, é consequência da nossa cultura. Mais uma vez, eu percebo que seja díficil de perceber que uma pessoa possa gostar de mais do que uma pessoa de cada vez, mas já poucos de nós acreditam em amores para toda a vida, apesar de eles existirem - são, diria eu, a excepção, não a regra, - mas continuamos a acreditar que se pode amar várias pessoas, uma depois da outra depois de outra depois de outra - até à exaustão - mas não em simultâneo.
E, em grande parte, isto acontece porque continuamos a não definir correctamente os conceitos - e, diria mesmo, a confundir conceitos relacionados, - porque continuamos a não nos conhecer verdadeiramente, porque continuamos a ter egos frágeis e inseguros. Confundimos a ardente paixão com o sereno amor, confundimos a falta da adrenalina do corte com o fim do amor, confundimos a ansea da novidade com o desejo de abandonar o que nos satisfaz.
E, claro, baralhamos ainda mais estes sentimentos quando eles são dos outros. Especialmente porque deixamos claro, por vezes explicitamente, mais habitualmente de forma implicita, que não estamos disponíveis para falar sobre o tema, que consideramos que os relacionamentos se constroem a dois, não a três ou mais. E com isto forçamos tantas vezes o fim desnecessário de relacionamentos sobre os quais se poderiam facilmente construir relacionamentos tão mais interessantes, tão mais duradouros, tão mais intimos e abertos - e não estou a falar de abertos no sentido de permitirem a entrada de outras pessoas, mas abertos no sentido em que muito mais coisas poderiam ser partilhadas entre as pessoas, no sentido em que os segredos entre os envolvidos seriam muito menos, abertos no mesmo sentido em que francos os descreveria, mas de uma forma mais absoluta.
Pensa nisto Pitux, consegues imaginar que duas pessoas tenham uma relação em que a confiança abunde a tal ponto que sejam capazes de dizer uma para a outra que gosta de uma terceira, que a acham gira, bonita, interessante (sim, porque o intelecto também pode ser uma base muito poderosa para uma relação), e até de se juntarem para a conhecer melhor, e quem sabe estarem junto quando a pessoa em comum lhe pergunta se quer fazer parte da familia - sim, para mim namorar é fazer parte da familia, de uma forma informal e até temporária, mas ainda assim parte da familia. Não te imagines como parte de uma destas relações, mas consegues imaginar que outras pessoas possam ser felizes desta forma? Que a considerem normal? Que estejam dispostas a fazer dela a sua?

Comentários
Cecília2010-01-11 23:49:06
É Sempre um gosto ler-te. Gosto desse apelo à intimidade e franqueza nas relações. Gosto muito.
Pitux2010-01-12 13:14:52
Apenas tenho a dizer duas coisas. Uma é que eu não acho errado amar duas pessoas ao mesmo tempo. Eu própria já amei duas ao mesmo tempo e mais do que uma vez. E não estou a falar de pais e filhos, nem nada desse género. O que acho errado é alimentar um desses amores. Mais cedo ou mais tarde um deles vai extinguir-se, como é normal.
A outra coisa é que isso de serem as três pessoas juntas e a aceitarem bem essa relação dos três lembra o filme "Vicky Cristina Barcelona". Há uma parte assim e eu confesso que é demasiado... absurdo para mim. Seria incapaz disso.
Não sei se estavas à espera de uma resposta maior, mas de momento é isso que me ocorre comentar.
sempre
Resposta